Bulimia, uma doença como caminho

Escrito por Ricardo Matos

08 de novembro de 2018

Os Transtornos Alimentares (TA), especialmente a anorexia e a bulimia, embora descritos clinicamente há pelo menos 2 séculos, ganharam destaque nas últimas décadas e têm ocupado não só a mídia, mas também têm despertado a atenção de especialistas e pesquisadores, empenhados em conhecer essas patologias que acometem indivíduos cada vez mais jovens.

Assunto tabu

Esse assunto é tabu. Apesar de estar presente na mídia, em filmes e livros, muita gente que enfrenta o problema tem dificuldade em pedir ajuda, pois não consegue admitir o problema. Eu fui uma dessas pessoas. 

Dietas milagrosas

Dos 18 aos 23 anos, queria ser magra. Eu já era magra, mas queria ser mais. Experimentava todo tipo de dieta e desistia. Dieta da Lua, dieta da sopa, dieta do arroz integral. O fim da dieta sempre culminava em uma desastrosa queda aonde consumia todos os alimentos calóricos que não eram permitidos na dieta.

O que marca as dietas extremas é o desequilíbrio. Uma hora, grande restrição e depois compulsão. As vezes ficava 1 mês sem comer nenhum doce mas depois comia 20 brigadeiros. Depois da ingestão exagerada de alimentos dessa natureza, geralmente somos invadidos por uma enorme culpa.

Por isso, hoje eu compreendo porque deitas não funcionam. É necessário que haja um processo de transição para àqueles que querem mudar seus hábitos alimentares de forma consistente. Se a mudança for feita com calma e planejamento, os resultados alcançados serão duradouros.

Trata-se de uma profunda mudança, na forma de ver o alimento e sua interação com ele. Essa mudança passa pelo conhecimento de si mesmo e a compreensão dos caminhos da sua mente, das suas emoções e as consequências das suas crenças e recompensas.

Medicação perigosa

Além das dietas, por vezes fazia uso de algum medicamento que prometia o emagrecimento milagroso. Fossem laxantes, chás 123 ervas, ou até mesmo os manipulados com altas doses de substancias emagrecedoras que atuavam no sistema nervoso.

Os medicamentos garantiam que não houvesse nenhuma fome, em compensação, todo o corpo ficava alterado. Tinha crises de ansiedade, tremedeira, taquicardia, visão turva. Não conseguia dormir. Muito cuidado com esse tipo de medicação. Além dos danos que causam a curto prazo, existem estudos que mostram que podem causar efeitos de médio e longo prazo como ansiedade e depressão.

Hoje penso o quanto esses medicamentos interferiram no quadro de depressão que atravessei anos depois. Em muitos casos os transtornos alimentares são de cunho especificamente psicológico.

Na verdade, sempre me alimentei de forma intermediária. Alimentação comum do brasileiro. Na minha rasa concepção, eu me alimentava bem, pois consumia pão integral, queijo branco, nunca bebi refrigerantes, usava peito de peru por indicação de nutricionista, enfim, assunto para outro post.

Porém, eu consumia açúcar todos os dias. Em pequenas quantidades, mas sempre consumia. No meu íntimo eu sabia que tinha algum coisa errada ali. Como não me exercitava, sentia que ganhava peso facilmente. Era mais uma impressão do que uma realidade.

Aos 22 anos conheci o mundo dos esportes. Tudo mudou. Comecei a remar, malhar, correr e surfar. Esporte virou minha paixão. Essa paixão interferiu diretamente na forma de me alimentar e de viver.  Busquei um nutricionista esportivo competente e comecei a conhecer mais sobre alimentos e suplementos. Foi meu primeiro vislumbre de uma alimentação saudável de verdade.

Depressão

Nunca ninguém soube disso. Resolvi compartilhar com você a minha experiencia pois acredito que possa servir para muitos que vivenciam isso e não sabem como mudar essa história.
Muito tempo se passou e esqueci que um dia esses fatos fizeram parte da minha vida. Um pouco antes de ir para Austrália, comecei a tomar medicação para uma diagnosticada depressão leve. De acordo com o diagnóstico, era uma depressão leve, mas na prática, me sentia bem pesada. Não tinha  vontade pra nada, só queria dormir.

Nesta época, estava trabalhando muito e sem tempo para me cuidar de verdade. A medicação ajudou a recuperar minhas forças, consegui retomar os esportes, o que fez toda diferença e também me ajudou na transição do Brasil para Austrália.

Quando cheguei na Austrália, após um tempo, comecei a me sentir melhor e resolvi retirar o medicamento. Fiquei bem por um tempo, mas comecei a comer demasiadamente, inclusive coisas que nunca fizeram parte da minha rotina alimentar.

Essa compulsão alimentar se tornou cada vez mais grave. No começo achava que era só uma fase. Esse é o problema dos alimentos destrutivos que contem açúcar e glúten, nunca bastam. É um circulo vicioso. Quanto mais você come, mais você quer comer.

Sobrepeso

Quando eu vi, já estava com quase 10 quilos acima do meu peso normal, fiquei assustada. Foi muito rápido, para falar a verdade eu nem vi acontecer, ou não quis ver. Quando me vi naquela situação, senti muita culpa e impotência. Como eu tinha deixado aquilo acontecer comigo? O que estava acontecendo? O que eu tinha que fazer para mudar aquele resultado?

Tentava todos os dias iniciar uma dieta, sem açúcar e sem pão. Mas não conseguia, pois estava totalmente viciada. Hoje compreendo a importância de ter passado por isso para poder compreender e ajudar as pessoas que ainda estão nessa situação. Foi importante compreender que não é fácil dar o primeiro passo e sair da inércia.

Ficava tão chateada comigo quando quebrava o compromisso que tinha feito logo de manhã, que a tarde já estava numa cafeteria comendo tudo aquilo que tinha afirmado que não consumiria naquele dia. Quanto mais chateada eu ficava, mas eu comia. Quanto mais comia, mais culpa sentia.

Entrei de cabeça nesse processo destrutivo de comer compulsivamente e sentir uma enorme culpa e buscava mais comida para aplacar a culpa.

Bulimia

Num determinado dia, comi tanto e somente alimentos destrutivos, de forma tão inconsciente, que quando terminei estava insuportavelmente cheia. Coloquei o dedo na goela e vomitei tudo. Senti um grande alivio. Não pensei muito sobre assunto. Segui meu dia como se nada tivesse acontecido.

Isso se repetiu algumas vezes, por cerca de 1 mês. Num dia senti muita dor ao vomitar. Meu estômago e esôfago doeram por horas. A dor me fez acordar, me fez perceber que estava desenvolvendo um transtorno alimentar. Fui pesquisar. Queria entender os sintomas e as motivações. De certa forma queria saber que não estava sozinha no mundo, que outras pessoas também passavam por aquilo.

Foi necessário um mergulho profundo para compreender o que estava acontecendo comigo naquele momento da minha vida. Esse transtorno alimentar foi o gatilho para que eu pudesse revisitar meu passado e me lembrar, passo a passo, da minha vida alimentar, das dietas sem fim, dos remédios para emagrecer, assunto que eu tinha colocado no baú lá no sótão da minha memória.

Desse mergulho muita coisa boa surgiu. Uma das coisas que veio a tona foi a necessidade que eu tinha de ser perfeita. E o quanto essa necessidade me escravizava em várias áreas da minha vida. No relacionamento comigo mesma, nos meus relacionamento exteriores, no trabalho.

Efeitos colaterais da perfeição

Descobri que era importante melhorar sempre, mas eu não me permitia errar e, nessas idas e vindas, acabei percebendo que a perfeição era na verdade sinônimo de estagnação. Somos juízes muito duros conosco. Não nos julgamos apenas uma vez e pronto. Julgamos inúmeras vezes, com sentenças duras e perpétuas. Percebi como essa busca pela perfeição se manifestava no corpo e na alimentação. Eu queria que a minha alimentação fosse perfeita. Mas, se por acaso, eu escorregasse e comesse alguma coisa fora do plano, eu queria comer tudo que eu encontrasse pela frente.

Moderação x Extremos

Não havia moderação. Eu era baseada por extremos. Ou tudo ou nada. E a vida não funciona assim. Nada é tudo ou nada sempre e completamente. Nada é absoluto, exceto tudo.
Compreendi que precisava colocar a tal da moderação em prática. A rigidez no âmbito da alimentação geralmente leva a compulsão posterior. Por exemplo, toda vez que eu chegava numa festa e me propunha a não comer nada do que estava lá, eu passava tanta vontade que na próxima escorregada eu buscava exatamente o que tinha me privado na festa.

Escolhas conscientes

Então, eu aprendi. Agora, quando vou numa festa, primeiro eu lancho ou janto em casa. Dessa forma já chego sem fome, o que me possibilita ter mais calma nas minhas escolhas, pois estou alimentada e assim, escolho uma coisa ou outra, bem especial, e me delicio com aquilo, e pronto. Não passo vontade e não passo do ponto. Participo do momento, faço parte da turma, sem meter o pé na lama.

Tive bulimia por curto tempo, mas pude perceber a força destrutiva que este transtorno pode trazer para a vida das pessoas. Minha sorte, acho,  foi o fato de ter mais idade do que a maioria das pessoas que são acometidas por esta doença, que é entre 12 e 25 anos, de acordo com pesquisas.

Distúrbios alimentares

Distúrbios alimentares são originários de hábitos alimentares de redução extrema ou consumo compulsivo de alimentos em excesso.  Comuns na fase da adolescência e no começo da adulta, esses distúrbios estão relacionados a uma série de fatores psicológicos, como ansiedade, depressão, angústias e pressões sociais para o “corpo perfeito”. De acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Americana de Psiquiatria, 1% da população mundial – cerca de 70 milhões de pessoas – sofrem com transtornos alimentares. Embora esses distúrbios sejam mais frequentes com pessoas do sexo feminino, com faixa etária entre 12 e 25 anos, no Reino Unido, um estudo feito pelo Serviço Nacional de Saúde (NHS – sigla em inglês) mostrou um aumento de 67% em homens entre 26 e 40 anos. Os especialistas que realizaram o estudo concluíram que uma parte considerável desses transtornos alimentares está ligada às redes sociais. E outra parte está ligada a saúde psicológica, sociocultural, biológica e genética.

Fatores de risco

  • Culto excessivo ao corpo
  • Maus hábitos alimentares
  • Distorção da imagem corporal
  • Baixa autoestima
  • Sentimento de culpa
  • Questões hormonais
  • Distúrbios emocionais

Meu objetivo neste post não é falar dos transtornos alimentares de forma detalhada. Apenas trazer uma visão geral para a questão. O que me impressionou na minha pesquisa sobre os transtornos alimentares foi a faixa etária de risco, todos os tratamentos são psicológicos e exigem a participação da família. Os transtornos mais comuns são: ANOREXIA NERVOSA, BULIMIA NERVOSA, TRANSTORNO DE COMPULSÃO ALIMENTAR, HIPERGAFIA, ALOTRIOFAGIA, TRANSTORNO DA COMPULSÃO ALIMENTAR PERIÓDICA (TCAP), VIGOREXIA.

Busque ajuda

Se você se identificou com alguns dos sintomas relatados acima, procure ajuda. O primeiro grande passo para a cura é reconhecer a necessidade de um tratamento. A busca pelo autoconhecimento, neste caso, pode te levar a um cura muito profunda e a uma nova jornada de transformação. Caso você deseje se aprofundar um pouco mais, selecionei esses três filmes que podem lhe ajudar a ampliar suas reflexões:

1. O mínimo para viver (To the bone)

2. Corpo perfeito

3. Anorexia – A Ilusão da beleza

Até a próxima!

Julia Murça

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