O impacto dos relacionamentos na Saúde

Escrito por Julia Murça

02 de junho de 2020

Esse momento da pandemia me fez refletir sobre a importância dos nossos relacionamentos. Não sinto falta do trânsito, nem da loucura de convites e compromissos. Estou amando a diminuição de poluição no planeta terra e a perspectiva de trabalho remoto para mais e mais pessoas. Isso mostra que existe um outro jeito de viver. 

Sinto muita falta sim, do contato com meus amigos! Saudade de abraçar e ficar junto, olho no olho e não pela tela de um computador.

Amigos íntimos são essenciais para a saúde!

Conversar com uma pessoa que conhece o seu contexto pode até curar alguma dor. A intimidade é muito especial, pois faz com que a pessoa tenha segurança para ser ela mesma e não se sentir julgada, se sentir simplesmente amada. 

Podemos chamar esses relacionamentos mais íntimos de círculo interno. Os amigos/conhecidos que também alegram nossa vida em encontros ou interações casuais fazem parte do círculo intermediário . Esse grupo de pessoas é igualmente vital para nossa sensação de pertencimento, essencial para nossa saúde.

AMIGOS PASSAGEIROS 

Amigos do círculo intermediário são aliados vitais contra a solidão relacional – dor que interfere diretamente no estado de saúde de muitos hoje em dia. 

Durante nossa fase de crescimento, as relações casuais desse círculo intermediário foram importantes para nosso desenvolvimento saudável. Colegas de sala de aula, esportes, acampamentos e clubes nos deram muitas oportunidades para desenvolver nossas habilidades interpessoais.

Essas conexões casuais são mais difíceis de estabelecer na idade adulta, especialmente quando deixamos nossas cidades nativas e mergulhamos nas demandas de carreira e família. Além de haver menos tempo para as atividades sociais, a competição e o status podem complicar os laços de amizade. 

É por isso que as celebridades e as pessoas em níveis mais altos de liderança, geralmente, se sentem sozinhas. Muitos adultos somente confiam nas relações estabelecidas durante sua juventude e se esforçam para manter suas amizades antigas, ao invés de se arriscarem em novos relacionamentos.

AFINIDADES

Estudos constataram que os programas educacionais sobre amizade na terceira idade surgiram na década de 90. Consistiam em aulas expositivas sobre autoestima, competência emocional, construção, manutenção e benefícios da amizade, bem como o desenvolvimento de habilidades sociais.

Alguns programas foram iniciados a partir de três focos: fazer novos amigos, como enfrentar dificuldades e impedir a solidão. A construção de novas amizades foi encorajada como uma forma de evitar a solidão e a depressão, especialmente pela capacidade de reduzir o risco de desordens psicológicas. Também foi observado que as amizades permaneceram depois dos programas, mas ressaltaram a necessidade de criar novas ações para manter o grupo.

A maioria de nós pode formar novas amizades no círculo intermediário, como fazíamos na infância. De que forma? Participando de grupos. Qualquer que seja a nossa idade, temos a tendência a nos conectar com pessoas que compartilham as mesmas afinidades, como esportes, artes ou uma festa do bairro. 

Pertencer a um grupo pode ajudar a reduzir o estresse, reparar danos emocionais e promover significado e propósito para nossas vidas. É por isso que existem os grupos de apoio, voltados para uma causa em comum. 

Grande parte do efeito terapêutico em grupo decorre da forma de interação. Contamos histórias, rimos, cantamos, dançamos e tocamos música. Nos alimentamos, nos movemos e trabalhamos juntos. É um movimento de troca, de dar e receber. Ligamos e respondemos, nos sintonizamos uns com os outros! 

RISO

O riso é um dos conectores mais contagiosos, universais e instintivos. Assim como o toque físico, é um gatilho para a liberação de endorfina. Portanto, quando compartilhamos risadas, nos sentimos mais felizes, mais familiarizados com as pessoas ao nosso redor e mais à vontade. O Dalai Lama emprega sua risada contagiante para se conectar com multidões e líderes mundiais. 

O riso reduz o estresse e faz a gente se sentir bem porque induz uma resposta bioquímica positiva no nosso corpo. Há uma produção dos famosos hormônios que geram bem-estar. O riso também une as pessoas – raramente rimos se estamos sozinhos, exceto por uma lembrança de algo muito divertido. 

O riso é contagiante! Quando escutamos uma gargalhada deliciosa, é quase impossível não rir junto. 

DIALOGIA DO RISO

Dialogia do Riso é um conceito baseado na prática da educação popular em saúde desenvolvida com alegria. Saúde entendida como um recurso para a vida e não como um objetivo de viver. É uma forma de promover a saúde utilizando o riso como recurso. 

“O riso é um fenômeno universal, condicionado a aspectos da cultura, da filosofia, da história e da saúde; é dialógico porque, através do humor nos deparamos com a comédia e o escárnio que existe por traz de cada riso, um código de comunicação inerente à natureza humana”.

MUSÍCA e DANÇA TERAPEUTICA

O som e o movimento rítmicos e sincronizados também são ótimos para nossa saúde. Se estamos sozinhos e com dificuldade de fazer novos amigos, uma boa maneira para sair disso é participar de um grupo de canto ou de dança. Pode ser um quarteto de barbearia, um grupo de corais da igreja ou uma banda local de blues ou rock. O importante é se enturmar! 

Uma pesquisa publicada pelo professor Robin Dunbar  mostrou que cantar produz laços sociais muito mais satisfatórios do que outras atividades em grupo, como escrita criativa e artesanato. Ele chama de “efeito quebra-gelo” o poder de ligação liberado pelo grupo que canta.

A dança também é uma excelente maneira de melhorar a saúde, inclusive porque é uma forma de movimento. 

A busca pela dança vem crescendo, seja para se distrair, como terapia ou mesmo como carreira profissional. 

A dança proporciona vários benefícios para o corpo físico, mental e emocional. Estudos científicos revelam que o ato de dançar favorece o bem-estar psicológico e é indicado para o tratamento de doenças como o Mal de Parkinson — como nos confirma a pesquisa do Instituto de Neurociência de Havard.

O GRANDE VILÃO 

O estresse é um dos grandes vilões contra a saúde e a dança é uma ótima maneira de aliviar ansiedade, irritabilidade ou nervosismo. Segundo a doutora Ana Escobar, quando uma pessoa se encontra em estado de estresse, o corpo tende a produzir  adrenalina e cortisol, deixando o coração acelerado e os músculos rígidos.

Com os movimentos da dança, esses hormônios começam a ser produzidos embalados pelo ritmo do coração, levando ao relaxamento do corpo e da mente. Ao mesmo tempo, estimula a produção da endorfina, dopamina e da serotonina, que são os hormônios da felicidade.

A dança vai além de ser considerada uma atividade física, porque funciona como uma forma de interação e expressão. Dançar sozinho te conecta com você mesmo, enquanto dançar com os outros promove a sociabilização. Ambas as formas estimulam a concentração, trazendo foco para os movimentos, ritmos e respiração.

A dança, além de prazerosa, também nos permite desenvolver uma nova forma de comunicação. É um modo de expressão que dispensa palavras e permite a espontaneidade da linguagem, transmitida pelos movimentos.

De acordo com o neurologista Tarso Adoni, a dança estimula várias partes do cérebro ao mesmo tempo e a cada novo passo novas sinapses são feitas. Isso favorece o raciocínio e a criatividade.

A cooperação e a atenção que são trocadas por meio de atividades sincronizadas em um grupo turbinam os benefícios à saúde. Qualquer forma de exercício físico produz endorfina que nos causa bem estar, mas ter um parceiro ou estar em grupo e trabalhar em sincronia aumenta a recompensa significamente.

Vale correr, andar de bicicleta, dançar – praticamente qualquer forma de exercício. Quando nossos movimentos são orquestrados para coordenar com os de outros, essa interação aumenta o nível natural de interação. 

ENDORFINA

O efeito da endorfina é apenas um dos muitos fenômenos bioquímicos que explicam porque as pessoas em todo o mundo têm canções e danças folclóricas tradicionais; porque as crianças recitam o hino nacional juntos na escola; porque a maioria das religiões envolve cantar ou cantar congregacional como parte regular dos serviços; e porque milhões ao redor do mundo praticam esportes. 

Essas respostas BIOquímicas nos recompensam por reunir amigos, garantir nosso senso de pertencimento e tornar as atividades sociais boas para nós, tanto física quanto emocionalmente.

Vamos dar atenção aos nossos relacionamentos! Eles podem nos trazer mais saúde e consequentemente mais felicidade! 

 

https://www.scielosp.org/article/csc/2011.v16n10/4127-4138/pt/

 

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