Precisamos falar sobre Compulsão Alimentar.

Escrito por Julia Murça

13 de outubro de 2020

Compulsão alimentar é considerada uma doença mental em que a pessoa, mesmo quando não está com fome, sente a necessidade de se alimentar e não deixa de comer apesar de já estar satisfeita.

Geralmente, o compulsivo perde o controle sobre o que está ingerindo e em que quantidade. Dessa forma, come alimentos em grandes porções e em curto espaço de tempo, gerando diversos problemas.

Quero compartilhar com você um pouco da minha experiência com esse distúrbio e algumas informações importantes que irão te ajudar a identificar e tratar este mal.

 

Minha experiência.

Só quem vive ou já viveu estados de compulsão alimentar compreende a força destrutiva desse processo.

Eu passei por isso por algum tempo e, apesar de ter sido muito difícil, hoje eu agradeço, porque só assim pude compreender o que as pessoas que têm essa dificuldade passam.

Dos 18 aos 23 anos, queria ser magra. Eu já era magra, mas queria ser mais ainda. Experimentava todo tipo de dieta e desistia. Dieta da Lua, da sopa, do arroz integral.

O fim da dieta sempre culminava em uma desastrosa queda, ocasião em que consumia em excesso todos os alimentos dos quais tinha me “privado”.

A propósito, o que marca as dietas extremas é o desequilíbrio. Em um momento, grande restrição, no outro, compulsão.

Às vezes, ficava um mês sem comer nada de açúcar e, depois, me empanturrava com 20 brigadeiros de uma só vez. Depois do exagero, era arrastada para o buraco da autopunição, temperado com culpa.

Até os meus 29 anos, minha vida alimentar era assim. De altos e baixos, sem consistência.

 

A depressão.

Nunca ninguém soube disso. Resolvi compartilhar com você esta parte da minha história, pois acredito que possa servir para muitos que vivenciam isso e não sabem como sair. Um pouco antes de ir para a Austrália, comecei a tomar remédio para depressão. De acordo com o diagnóstico, era uma depressão leve, mas, na prática, era bem pesada para mim. Não tinha vontade para nada, só queria dormir.

Nessa época, estava trabalhando muito e sem tempo para me cuidar de verdade. A medicação me ajudou a recuperar as forças, retomar os esportes e também me amparou na mudança de país.

Após um período morando na Austrália, comecei a me sentir melhor e resolvi retirar o medicamento. Fiquei bem por um tempo, mas comecei a comer demasiadamente, inclusive coisas que nunca fizeram parte da minha rotina alimentar.

Essa compulsão alimentar se tornou cada vez mais grave.

 

Sobrepeso.

Quando percebi, já estava com quase 10 kg acima do meu peso normal. Fiquei assustada. Foi muito rápido. Para falar a verdade, eu nem vi acontecer.

Quando me enxerguei naquela situação, senti culpa e impotência. Como tinha deixado aquilo acontecer comigo? O que estava ocorrendo? O que tinha que fazer para mudar aquele resultado?

Tentava todos os dias iniciar uma dieta, sem açúcar e sem pão, mas não conseguia, estava totalmente viciada.

Esse é o problema dos alimentos destrutivos que contêm açúcar e glúten, eles nunca bastam. É um círculo vicioso. Quanto mais você come, mais quer comer.

 

O autoengano e a frustração.

De manhã, fazia o compromisso de não consumir esses ingredientes e, à tarde, já estava numa cafeteria comendo tudo aquilo que tinha me privado naquele dia. Quanto mais chateada eu ficava, mais eu comia. Quanto mais eu comia, mais culpa sentia. Entrei de cabeça nesse processo destrutivo de comer compulsivamente, sentir uma enorme culpa e buscar mais comida para aplacar o remorso.

 

Os atalhos perigosos.

Além das dietas, por vezes fazia uso de algum medicamento que prometia o emagrecimento milagroso, como laxantes, chás de 123 ervas e, até mesmo, manipulados com altas doses de substâncias emagrecedoras que atuavam no sistema nervoso.

Os medicamentos garantiam que não haveria nenhuma fome, mas, em compensação, todo o corpo ficava alterado. Eu tinha crises de ansiedade, tremedeira, taquicardia e visão turva. Não conseguia dormir.

Muito cuidado com esse tipo de medicação. Além dos danos que provocam a curto prazo, existem estudos que mostram que podem causar efeitos colaterais a médio e longo prazo, como quadro de ansiedade crônica e depressão.

Hoje penso o quanto esses remédios interferiram no quadro de depressão que atravessei anos depois.

 

A bulimia.

Num determinado dia, comi uma enorme quantidade de alimentos destrutivos de forma tão inconsciente que, quando terminei, estava insuportavelmente cheia. Coloquei o dedo na goela e vomitei tudo. Senti um grande alívio.

Isso se repetiu algumas vezes por cerca de um mês. Na última vez que forcei o vômito, senti muita dor. Meu estômago e esôfago arderam por horas. E essa dor me fez acordar. Me fez perceber que estava desenvolvendo um transtorno alimentar. Fui pesquisar. Queria entender os sintomas e as motivações.

De certa forma, queria saber que não estava sozinha no mundo, que outras pessoas também passavam por aquilo.

 

O mergulho.

Foi necessário um mergulho profundo para compreender o que estava acontecendo comigo naquele momento.

Esse transtorno alimentar foi o gatilho para que eu pudesse revisitar meu passado e me lembrar passo a passo da minha vida alimentar, das dietas sem fim, dos remédios para emagrecer, assunto que eu tinha colocado no baú do sótão.

Desse mergulho, muita coisa boa surgiu. Uma delas que veio à tona foi a necessidade de ser perfeita. E o quanto essa imposição me escravizava em várias áreas da minha vida. No relacionamento comigo mesma, nos meus relacionamentos exteriores, no trabalho.

 

Os efeitos colaterais da perfeição.

Descobri que era importante melhorar sempre, mas eu não me permitia errar e, nessas idas e vindas, acabei percebendo que a perfeição era, na verdade, sinônimo de estagnação. Somos juízes muito duros conosco.

Não nos julgamos apenas uma vez e pronto. Nos julgamos inúmeras vezes, com sentenças duras e perpétuas.

Enxerguei como essa busca pela perfeição se manifestava no corpo e na alimentação. Eu queria que a minha alimentação fosse perfeita. Mas, se por acaso eu escorregasse e consumisse alguma coisa fora do plano, eu queria comer tudo que eu encontrasse pela frente.

 

Aspectos da compulsão alimentar.

PSICOLÓGICO: o ponto aqui é buscar ajuda para compreender qual a falta que a comida está tentando preencher. O autoconhecimento, por meio de terapias e práticas espirituais, foi o caminho para mim.

A minha mensagem para você que vive isso hoje é trazer um questionamento. A intenção é que se questione qual o sentido da comida na sua vida. O que ela representa para você? Como se vê diante dela? Como é sua relação com ela?

Quando você parar de lutar, de sofrer, de girar em torno da comida e do seu peso, quando conseguir se entregar e, finalmente, puder confiar no seu corpo, estará curada.

FÍSICO: açúcar, glúten e derivados de leite são alimentos que geram compulsão alimentar. Primeiro, porque viciam. Depois, por serem calorias vazias, ou seja, não aportam nenhum ou quase nenhum nutriente para o corpo e, por isso, o corpo fica com fome.

 

A busca pelo equilíbrio.

Na minha jornada alimentar até os 29 anos, não havia moderação. Eu era baseada por extremos. Ou tudo ou nada. E a vida não funciona assim. Nada é tudo ou nada sempre e completamente. Nada é absoluto, exceto tudo.

Compreendi que precisava colocar temperança na minha vida. A rigidez no âmbito da alimentação geralmente leva à compulsão posterior.

Por exemplo, toda vez que eu chegava a uma festa e me propunha a não comer nada do que tinha lá, eu passava tanta vontade que, na próxima escorregada, buscava exatamente o que tinha me privado.

Então, aprendi: agora, quando vou a uma festa, primeiro eu lancho ou janto em casa. Dessa forma, chego sem fome, o que me possibilita ter mais calma nas minhas escolhas. E, calma e tranquila, pois estou alimentada, escolho uma coisa ou outra, bem especial, e me delicio com aquilo, e pronto. Não passo vontade e não passo do ponto. Participo do momento, faço parte da turma, sem meter o pé na lama.

 

Estratégia ou falta dela.

A palavra DIETA está associada à restrição, privação, regime. Soa como algo que foi ditado por alguém e que irá nos privar de prazeres. Esse sentimento de privação gera dificuldades no processo de manter o plano alimentar, fazendo com seja cumprido apenas por um curto período de tempo.

Além disso, quando saímos da dieta, temos a tendência de querer matar a saudade de tudo aquilo que nos foi privado. Geralmente, voltamos a nos alimentar da antiga forma, ou seja, nada mudou.

Dietas funcionam num sistema de privação/compulsão. Por um momento, a pessoa consegue se privar de alguns alimentos, mas, quando sai da dieta, come esses mesmos alimentos de forma compulsiva. E é por isso que dietas não funcionam. O caminho da mudança é uma longa estrada.

Dieta que funciona é uma longa estrada.

 

Ressignificando a dieta.

É preciso ressignificar a palavra dieta dentro de nós. Dieta é um estilo de vida!

A palavra “dieta” vem do grego e quer dizer “gênero de vida”. Se ressignificarmos o sentido dela em nossa mente, podemos perceber que é apenas a forma como decide se alimentar. É uma decisão sua, não pode ser imposta. Você deve querer mudar seus hábitos alimentares por suas próprias razões – seja em busca de saúde plena, seja para deixar de adoecer, seja para perder peso.

Mas qualquer plano alimentar só vai funcionar quando você compreender as suas motivações para deixar de consumir determinados alimentos e acrescentar outros.

Leia mais sobre como construir uma relação saudável com a alimentação.

 

O conhecimento que liberta.

Quando você conhece um pouco mais sobre si mesmo, fica mais fácil perceber o que te faz bem e o que te faz mal. A chave da mudança está aí. Nutre-se do que te faz bem!

Se você não compreende por que não deve consumir refrigerantes, provavelmente irá conseguir ficar um tempo sem consumir, mas logo irá ceder ao desejo. Quando entende que aquele líquido é um veneno e só te faz mal, você não vai querer mais.

Como despertar essa consciência?

Um caminho é tirar por um tempo algum alimento, como o açúcar, e depois consumir. Faça isso de forma consciente, percebendo os efeitos da ausência dessa substância no corpo. Depois, volte a consumir, prestando atenção a cada mordida, vendo como seu organismo reage, como esse consumo impacta nas suas emoções. Em seguida, depois do consumo, veja o que acontece, como você se sente. Assim, devagarzinho, vai conseguindo enxergar o que cada alimento causa em você.

 

De passo em passo.

Para uma dieta funcionar, deve ser incorporada gradualmente, com calma, de passo em passo, porém de forma definitiva. Não devemos pensar que iremos deixar de comer certo tipo de alimento e, depois, voltar a se alimentar daquilo. Precisamos, na verdade, transformar nossa forma de enxergá-lo.

Isso não quer dizer que nunca mais você vai comer um pedaço de pão, por exemplo. A ideia é que esse alimento não faça mais parte do seu dia a dia. Em ocasiões especiais, até pode se permitir comer um bom pão, com prazer e alegria de estar fazendo isso consciente e esporadicamente.

Aí está a chave: compreender que não há retorno para o que não serve mais. É um caminho sem volta. Quando você toma consciência disso, decide de forma definitiva que não quer mais causar dano a si próprio. Ou seja, para de se machucar.

 

Conscientização.

Antes de iniciar o processo de mudança de hábitos alimentares, é preciso dar espaço para a conscientização. É importante entender que a alimentação industrial vigente causa danos a curto, médio e longo prazo. Para isso, é necessário um pouco de curiosidade e pesquisa.

O maior problema hoje para fazer a mudança alimentar de forma consistente é o paladar viciado. O paladar alterado pela indústria alimentícia, que valoriza o inútil, complexo e nocivo em depreciação ao que é útil, simples e saudável. Os alimentos estão cheios de substâncias excitantes, como açúcar, aditivos químicos e conservantes. Essas substâncias provocam dependência e geram resistência psicológica e somática que dificultam a mudança para uma alimentação mais saudável.

Saiba quais são os pilares para uma saúde vigorosa e implemente na sua vida visando a longevidade.

 

Não desanime!

De passo em passo e com a estratégia certa, tudo é possível!

No início, mudar exige esforço, mas, ao longo do caminho, vai ficando mais fácil. É profundamente gratificante efetivar a mudança. Ganhamos foco, fortalecemos a nossa vontade e vemos a nossa saúde prosperar. Adquirimos força e coragem para vencer qualquer batalha.

É importante estar ciente de que o processo de adaptação nem sempre é agradável. A retirada dos produtos intoxicantes que viciam o corpo pode trazer várias reações adversas. As mais comuns são dores de cabeça, perda de sono, tontura e enjoo. Todos esses sintomas podem fazer parte do processo de desintoxicação.

Quanto maior a consciência, maior a responsabilidade. O primeiro passo é sair da posição de vítima do sistema e assumir total responsabilidade sobre a sua saúde e alimentação. Não é fácil. Dá trabalho. Mas vale a pena! Pode confiar!

Assim que você começar a se libertar desse sistema disfuncional e tirar elementos viciantes da sua rotina, você ficará mais consciente dos impulsos, carências e reações causadas por esse tipo de comida.

Um dos benefícios de se livrar de produtos industriais é cessar as compulsões causadas por eles.

Descubra 10 dicas para uma alimentação saudável.

 

Redescobrindo o verdadeiro prazer!

Descubra o prazer de habitar um corpo saudável.

Alimentos que antes você achava saborosos, após o tempo de readaptação, serão bem desagradáveis ao seu paladar. A conduta alimentar proposta é de mais vegetais, frutas e alimentos puros e ricos, o que não é nenhuma novidade. Quanto mais pessoas estiverem conscientes e saudáveis, maiores as chances de darmos um salto evolutivo como humanidade. Ou seja, você pode fazer a sua parte neste grande movimento de ascensão.

 

ALERTA!

É possível que, no início, as pessoas mais próximas a você se oponham ao seu novo estilo de vida. Por quê? Porque, quando começamos a mudar para melhor, incomodamos… mostramos ao outro que a mudança é viável, mas que ele ainda não dá conta de mudar. Persista!

A longo prazo, o seu estado de saúde e vigor falará por si só. Permanecendo fiel à sua verdade e respeitando o tempo de cada um, você dará o exemplo.

Fique firme na jornada! É delicioso viver com saúde plena e energia!

 

Para efetivar uma mudança consistente em relação à sua alimentação, é preciso atenção para os seguintes passos:

DÊ UM BASTA! O primeiro passo é dar um “chega” verdadeiro. Chega de sintomas de falta de saúde que você não quer mais. Chega de alergias. Chega de fadiga. Chega de dor de cabeça. Chega de intestino preso e/ou diarreias. Diga não para as noites maldormidas e manhãs mal-humoradas.

DECIDIR! “Você está no ponto de se tornar a pessoa que você quer ser”, diz Tony Robbins. É preciso tomar a decisão de transformar a sua vida por meio de seus hábitos alimentares.

CONHECER! Tomada a decisão, é preciso buscar conhecimento sobre os alimentos, quais são construtivos, intermediários e destrutivos. Aprender quais provocam danos e inflamações. Assim, você começa a programar seu cérebro para não mais querer veneno. Como? Continue consumindo açúcar, por exemplo, mas, toda vez que comer, diga a você mesmo: isso é veneno! É uma técnica muito boa! Devagarzinho, o organismo passa a reagir a essa informação e o cérebro começa a fazer associações diferentes: de açúcar e prazer para açúcar e doença.

BUSQUE AJUDA! No começo, é melhor buscar assistência de quem já trilhou esse caminho. Procure também bons profissionais de saúde. Isso pode até ser difícil, porque hoje existem muitos nutricionistas que não se atualizam e ainda balizam seus direcionamentos em mitos e inverdades. Assim como médicos que não conhecem nada de nutrição. Nesse sentido, busque alguém que seja um pesquisador, e não só mais um papagaio ingênuo. E, o mais importante, busque alguém que viva aquilo que ela fala.

ESTRATÉGIA! Agora que você já seguiu os passos acima, chegou a hora de buscar estratégias para efetivar a mudança. São táticas simples que fazem toda a diferença.

ESTRATÉGIAS DE BATALHA:

  • Nunca fique desidratado. Quando temos sede, nos confundimos e sentimos vontade de comer.
  • Nunca fique com fome. Se isso acontecer, você vai responder ao instinto de sobrevivência e, simplesmente, comer o que tiver pela frente.
  • Esteja atento ao estado emocional. Se ficar chateado e tiver vontade de comer algo, faça novas associações, como sair para dar uma caminhada, andar de bicicleta ou assistir a um bom filme.
  • Tenha sempre algo saudável por perto, assim, quando tiver fome, não cairá na tentação de consumir besteiras.
  • Quando for a festas ou reuniões familiares, alimente-se antes. Você já irá nutrido e não passará vontade. Poderá até comer alguma coisa ou outra, mas não se encherá de comida de festa, que geralmente não é nada saudável.
  • Antes de suprimir alimentos que está muito acostumado, adicione à sua dieta alimentos verdadeiramente nutritivos, como espirulina, clorela, whey protein de qualidade, folhas escuras, frutas etc. Dessa forma, a retirada dos alimentos que não prestam será natural e menos dolorosa. Recomendo o livro Método João Gabriel, que fala sobre isso com propriedade.

Saiba que a saúde é um estado de equilíbrio dinâmico entre a herança constitucional e as influências ambientais. Habite um meio ambiente saudável e próspero, interna e externamente.

 

Saúde não é só não adoecer.

A OMS define saúde como “um completo estado de bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doença”.

Dito isso, responda para você mesmo: eu sou saudável?

É preciso dar ênfase à interdependência do corpo-mente-emoção-espírito e meio ambiente para compreender o conceito real de saúde plena! Não tem como separar as coisas… para estar bem da cabeça, você precisa estar bem no corpo. Para ter inteligência emocional, seu corpo e mente devem estar equilibrados. O ser humano é um sistema complexo. Você é tudo isso junto: mente, emoções, pensamentos, corpo e espírito. Com o corpo saudável, fica mais fácil equilibrar as outras áreas.

Desejo a todos neste estado: saúde plena!

 

Referências

 

 

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